
A Relevância Estratégica das Agropecuárias Locais e os Riscos Ignorados na Crise do Agronegócio
5 de agosto de 2025
O impacto da tributação das LCAs e CPRs financeiras no agronegócio brasileiro
21 de agosto de 2025A Integração Lavoura-Pecuária (ILP) é um sistema de produção que visa a utilização sinérgica de atividades agrícolas e pecuárias na mesma área, por meio da rotação, consorciação, sucessão ou diversificação temporal e espacial das culturas e da criação de animais. Esse modelo promove uma exploração racional e sustentável do solo, gerando benefícios mútuos para as duas atividades, ao mesmo tempo em que aumenta a eficiência do uso da terra e dos insumos agrícolas.
O solo passa a ser economicamente explorado durante todo o ano, permitindo maior produtividade e rentabilidade, principalmente na produção de grãos e carne a custos reduzidos, graças ao aproveitamento mútuo entre lavouras e pastagens.
A adoção do sistema de Integração Lavoura-Pecuária (ILP) representa uma estratégia sustentável e multifuncional de uso da terra, promovendo sinergia entre a agricultura e a pecuária. Entre os principais benefícios observados, destacam-se os ganhos agronômicos, como a recuperação e conservação do solo, aumento da fertilidade, controle fitossanitário e melhor aproveitamento de insumos. Do ponto de vista zootécnico, a ILP favorece a melhoria na qualidade e na disponibilidade de forragem ao longo do ano, otimizando o desempenho animal e garantindo maior eficiência alimentar, especialmente durante períodos críticos, como a estação seca.
Esse modelo integrado permite não apenas maior produtividade por hectare, como também reduz os impactos ambientais da atividade agropecuária, ao mesmo tempo em que aumenta a rentabilidade do produtor. A seguir, serão detalhados os principais aspectos agronômicos e zootécnicos diretamente proporcionados pela adoção eficiente do sistema ILP.
1 Restauração e renovação de pastagens desgastadas
A ILP tem sido amplamente utilizada como estratégia para recuperação de pastagens degradadas. A técnica consiste no cultivo de culturas graníferas por um ou mais anos em áreas comprometidas, com posterior introdução de pastagens forrageiras que se beneficiam dos resíduos orgânicos e do aporte nutricional deixado pela lavoura. Estabelece-se, assim, um calendário estratégico de adubação que favorece a revitalização do solo.
2 Alimentação do gado na estação seca
Um dos diferenciais do sistema é a capacidade de garantir alimento ao rebanho nos períodos de escassez, por meio do uso de pastagens consorciadas, silagem e resíduos agrícolas. As práticas de correção e manejo do solo conferem maior resiliência à pastagem, mesmo durante a seca.
3 Limitação do uso de insumos externos
A ILP possibilita significativa economia no uso de insumos externos. Os grãos produzidos podem ser aproveitados para formulação da ração do próprio rebanho, e a forragem cultivada na propriedade supre boa parte das exigências nutricionais dos animais, reduzindo os custos com aquisição de alimentos .
4 Sistemas de integração de lavoura pecuária
4.1 Uso de Forrageiras Anuais
Após a colheita da lavoura associada ao capim, a área de pastagem resultante é fechada até que esteja apta para uso durante a entressafra. Nesse cenário, a pastagem criada é reconhecida como uma segunda cultura na rotação. Outra opção é plantar, no início da estação chuvosa, uma cultura destinada à silagem. Logo após esta silagem, deve-se cultivar a segunda cultura, que precisa apresentar um crescimento rápido e ser resistente à falta de água, pois será implantada no final das chuvas. O sorgo forrageiro e o milheto são exemplos de plantas adequadas para essas condições, especialmente se o objetivo for apenas a produção de forragem durante a entressafra.
4.2 Rotação de pastagens anuais com cultivos perenes
Esse sistema é extremo na área de exploração, regiões de pastagens anuais se intercalam com pastagens perenes a cada dois ou três anos. Esse sistema demanda planejamento criterioso, mão de obra especializada e infraestrutura adequada, sendo altamente eficaz para manutenção da fertilidade e produtividade das áreas. Beneficia-se, nesse sistema, tanto as lavouras como as pastagens da propriedade rural.
4.3 Substituição de pastagens degradas por culturas anuais
Esse sistema é muito utilizado em propriedades onde a pecuária de corte é a principal atividade, visando restaurar pastagens erroneamente manejadas e com ausência de adubação. Nessas áreas, normalmente, encontra-se um solo de baixíssima fertilidade, que exige acréscimo de corretivos e fertilizantes para aumentar a fertilidade do solo. A correção do solo se mostra de extrema importância para o cultivo de forragens anuais.
4.4 Armazenamento de forrageiras
Diante da sazonalidade da produção forrageira, são empregadas inúmeras estratégias para buscar o aumento do volumoso durante o ano. A metodologia utilizada deve ser adequada, observando o grau de exploração em cada propriedade rural. A utilização de silagem e feno, por exemplo, iniciou como uma alternativa para possibilitar a exploração de alta capacidade de forragens em áreas tropicais, visando assegurar fornecimento de alimento de qualidade durante o período de escassez de alimento.
4.4.1 Feno como estratégia de conservação forrageira
O feno é uma das formas mais tradicionais e eficazes de conservação de forragens para alimentação animal, consistindo na desidratação natural ou artificial de plantas forrageiras até atingirem um teor de matéria seca (MS) de aproximadamente 80% a 90%, o que permite seu armazenamento por longos períodos sem risco significativo de deterioração microbiológica.
No contexto da Integração Lavoura-Pecuária (ILP), a produção de feno representa uma alternativa estratégica para a formação de reservas alimentares, especialmente em propriedades localizadas em regiões com períodos de seca prolongada ou com escassez de pastagens durante o inverno. A escolha da espécie forrageira a ser fenada é crucial, devendo-se priorizar plantas com alto valor nutritivo, boa palatabilidade e adequada resposta à desidratação, como o tifton, o coast-cross e o azevém.
A produção de feno requer planejamento quanto ao ponto ideal de corte, momento no qual a planta apresenta maior valor nutritivo e menor lignificação. Além disso, cuidados devem ser tomados durante o processo de secagem para minimizar perdas por fermentação, lixiviação e degradação oxidativa. A mecanização do processo de enfardamento e a proteção adequada dos fardos contra intempéries, como o uso de lonas e abrigos cobertos, são determinantes para assegurar a qualidade final do feno.
Sob o ponto de vista zootécnico, o feno é uma fonte volumosa de fibra efetiva, contribuindo para a manutenção da saúde ruminal, além de ser facilmente transportável e oferecido aos animais em diferentes sistemas de criação, inclusive em confinamentos e semi-confinamentos. Sua utilização na ILP é particularmente útil para assegurar regularidade no fornecimento de alimento durante os intervalos entre ciclos agrícolas.
4.4.2 Silagem como alternativa de volumoso de alta qualidade
A silagem é outro método amplamente utilizado na conservação de forragens, sendo especialmente eficaz na preservação do valor nutricional das plantas colhidas em períodos de maior produção. O processo consiste na fermentação anaeróbica de forragens com teor de matéria seca ideal entre 30% e 35%, resultando em um produto altamente energético e palatável, ideal para suplementação durante os períodos de escassez.
No contexto da ILP, a silagem permite ao produtor aproveitar a alta produtividade de cultivos como o milho, o sorgo e o capim-elefante, especialmente em áreas integradas onde a rotação de culturas permite o plantio de espécies específicas para ensilagem. A escolha da planta, o estágio ideal de colheita, a compactação eficiente no silo e a vedação correta são fatores essenciais para o sucesso do processo fermentativo, que deve ser conduzido sob ambiente rigorosamente anaeróbico. Além de garantir elevada densidade energética na dieta dos animais, a silagem reduz drasticamente as perdas no campo, promovendo um uso mais eficiente da biomassa vegetal produzida. Seu papel na ILP é ainda mais estratégico quando associada ao planejamento nutricional do rebanho e à utilização de aditivos microbianos e químicos que otimizam o perfil fermentativo e a estabilidade aeróbica do material armazenado. A silagem, portanto, é uma ferramenta valiosa para a intensificação sustentável da pecuária em sistemas ILP, contribuindo para a regularidade da produção animal ao longo do ano e mitigando os efeitos adversos da sazonalidade sobre o desempenho zootécnico e os índices de produtividade da propriedade rural.
4.4.3 Pré-secado: estratégia intermediária entre feno e silagem
O pré-secado é um volumoso com teor de matéria seca entre 50% e 60%, constituindo uma técnica intermediária entre a fenação e a ensilagem. Enquanto para a formação de silagem, exige-se uma forrageira com uma média de 30 a 35% de Matéria Seca, para a fabricação do feno, exige-se uma forragem com uma média de 80 a 90% de Matéria Seca.
Descritivamente, os fardos de pré-secado apresentam densidade estimadas de em média 320kg/m3, enquanto o feno apresenta 135kg/m3 e a silagem em torno de 600 a 800kg/m3. Sendo assim o pré-secado nada mais é do que a conservação entre a fenação e ensilagem, no qual a fermentação indesejada pode ser controlada pela diminuição da atividade de água ou aumento da pressão osmótica.
Existem duas formas de realização de pré-secado: a primeira utiliza em parte do processo, a técnica de fenação. Nesse caso, a forragem é processada exatamente como o feno, diferenciando-se na desidratação, no qual utiliza-se de 40% a 60% de umidade, finalizando com a compactação e armazenamento em fardos. A segunda é de ensilagem, colhendo e picando o material, deixando-o no ambiente, com exposição à luz solar. Nesse processo, ocorre a desidratação, contato com umidade e ventos, até que se atinja um parâmetro satisfatório de Matéria Seca, com cerca de 50%, até que o material seja armazenado.
Do ponto de vista nutricional, o pré-secado preserva melhor a qualidade da forragem em relação ao feno, mantendo maior concentração de energia, proteína e digestibilidade, ao passo que reduz os riscos de fermentações indesejadas típicas de silagens mal compactadas. Além disso, apresenta menor incidência de micotoxinas, especialmente quando o processo de vedação é realizado corretamente.
Zootecnicamente, o pré-secado mostra-se vantajoso pela alta aceitação pelos animais e pela praticidade no fornecimento, podendo ser utilizado como alimento volumoso principal ou suplementar, dependendo das exigências nutricionais e do sistema de produção. Sua inclusão estratégica na ILP permite o melhor aproveitamento das áreas agrícolas, associando o cultivo de forrageiras de alto valor com a conservação segura e eficiente do alimento.
A adoção do pré-secado dentro dos sistemas ILP reforça o princípio da intensificação sustentável da produção pecuária, oferecendo uma solução técnica para a conservação de forragem com alto valor nutritivo, menor dependência climática e excelente viabilidade operacional para propriedades de diferentes portes.
5 Desempenho animal
A ingestão de matéria seca (MS) é o principal fator associado ao desempenho animal, representando a via de ingresso de nutrientes. A energia e a proteína obtidas são os componentes principais para garantir as necessidades de mantença e produção animal.
No estudo de avaliação de alimentos com o gado, fatores como o consumo, digestibilidade e cinética ruminal, são avaliados, devido seu papel na resposta animal, relacionado com o fornecimento de determinados alimentos.
A adição do pré-secado na nutrição animal, juntamente com o oferecimento de grãos, apresenta um importante resultado, apresentando que os animais que tiveram um maior consumo de matéria seca (MS), apresentaram maior peso final e ganho médio diário (GMD).
O uso do pré-secado, apresenta-se, portanto, como uma opção para a preservação de plantas forrageiras utilizadas nas pastagens, sendo vantajoso para a redução de tempo de secagem e riscos de perdas no campo, além de ser uma forma de suplementação animal em momentos de escassez.
6 Suplementação mineral
A adoção da suplementação múltipla, composta por fontes de proteína, energia, minerais, vitaminas e aditivos, durante o período seco tem demonstrado resultados zootécnicos expressivos, sendo eficaz na prevenção da perda de peso dos bovinos em épocas críticas do ano, caracterizadas pela escassez de pastagens de qualidade.
Nesse contexto, a cana-de-açúcar desponta como uma alternativa estratégica de volumoso na alimentação de ruminantes, especialmente quando associada a suplementos proteico-minerais. Essa combinação assegura o suprimento das exigências nutricionais essenciais ao desempenho animal, contribuindo para o ganho de peso mesmo em períodos de baixa oferta forrageira, e promovendo, consequentemente, a melhoria dos índices produtivos da propriedade.
Ademais, a suplementação mineral deve ser ofertada de forma contínua e permanente, disponibilizada diretamente no cocho, uma vez que sua eficácia está diretamente vinculada à regularidade do consumo pelos animais
7 Conclusão
A implementação da Integração Lavoura-Pecuária (ILP) no Brasil tem evoluído significativamente nas últimas décadas, com o desenvolvimento de modelos adaptados às diferentes condições edafoclimáticas e realidades produtivas das regiões brasileiras, evidenciando a aplicabilidade e os resultados práticos desse modelo de produção sustentável.
Os diversos modelos práticos de Integração Lavoura-Pecuária desenvolvidos e difundidos pela Embrapa e parceiros, demonstram a viabilidade e a adaptabilidade da ILP às distintas realidades edafoclimáticas e produtivas do território nacional. Cada sistema apresenta especificidades operacionais, mas todos convergem para objetivos comuns: a recuperação de áreas degradadas, o aumento da produtividade agrícola e pecuária, a melhoria das características físicas, químicas e biológicas do solo, e a racionalização do uso de insumos.
A consolidação dessas experiências no campo reforça a ILP como uma estratégia agronômica e econômica eficaz para a sustentabilidade do agronegócio, possibilitando a intensificação da produção com menor impacto ambiental, maior resiliência climática e melhor retorno socioeconômico para os produtores rurais.




