
O impacto da tributação das LCAs e CPRs financeiras no agronegócio brasileiro
21 de agosto de 2025O setor arrozeiro vive uma crise. Diferentemente da soja, que sofre impactos principalmente da crise climática, o arroz enfrenta, além disso, um problema de natureza distinta: a crise econômica e de mercado. O Rio Grande do Sul, maior produtor nacional e referência no cultivo do grão, atravessa um período delicado. O arroz, alimento presente diariamente na mesa dos brasileiros, hoje encontra-se no centro de uma instabilidade que preocupa toda a cadeia produtiva.
A safra de 2024/2025 foi registrada como mais uma supersafra, com números históricos de produção. O mesmo ocorreu em safras anteriores, e a expectativa é que as próximas também sejam assim. O resultado, no entanto, trouxe efeitos colaterais não tão positivos, pois a alta oferta do grão pressionou o mercado e fez com que o preço pago ao produtor caísse significativamente, vivenciando, na prática, a lei da oferta e da demanda. O impacto foi imediato no bolso do produtor rural que sobrevive dessa cultura ou em regiões onde o grão é a principal atividade agrícola. Para muitos, vender abaixo do custo de produção tornou-se realidade.
Além da pressão exercida pela grande oferta, os agricultores também enfrentaram as consequências do clima. Chuvas intensas no Rio Grande do Sul atrasaram a colheita, reduziram a produtividade e comprometeram a qualidade de parte do grão. Essa combinação de custos elevados, excesso de oferta e perda de rentabilidade criou um cenário de desequilíbrio: mesmo com produtividade alta, os ganhos não cobrem os investimentos, deixando o produtor em situação vulnerável. Comparado ao ano anterior, o preço da saca caiu mais de 40%, segundo relatório do Itaú BBA, enquanto os custos com insumos e logística se mantiveram altos.
Diante dessa conjuntura, muitos produtores encontram dificuldades para honrar compromissos financeiros e já avaliam reduzir a área plantada na próxima safra, o que pode gerar um efeito em cadeia, prejudicando também cooperativas, indústrias beneficiadoras e o comércio local.
O fato é que a crise do arroz no Rio Grande do Sul não se resume a uma safra difícil, mas a um conjunto de fatores que revelam a fragilidade da cadeia produtiva. Se, por um lado, o consumidor se preocupa com a possibilidade de alta de preços no mercado varejista, por outro, o produtor amarga prejuízos com a venda de um produto essencial a valores que não cobrem seu custo de produção. É um cenário que exige mais do que medidas emergenciais, demanda políticas públicas consistentes de apoio à comercialização, incentivo ao cooperativismo e investimento em infraestrutura rural, de modo a proteger o agricultor sem comprometer o abastecimento da população.
Com destaque, um ponto de reflexão seria a “comoditização” do arroz, isto é, organizar parte da produção para padrões exportáveis. Essa estratégia ajudaria a enxugar excedentes nas safras recordes do RS e dar vazão a volumes quando os preços internos estiverem deprimidos. Além disso, o país ainda importa arroz, tal qual foi visto durante as enchentes no Estado, mesmo sem necessidade. Por isso, faz mais sentido calibrar a política comercial, favorecer exportações quando houver superoferta e usar instrumentos para dar piso de preço ao produtor, do que abrir a porteira a importações generalizadas.
O arroz, que sempre está presente no prato do brasileiro, hoje simboliza um dilema que vai além da alimentação, reflete a complexidade do agronegócio gaúcho e os desafios de equilibrar produção, mercado e sustentabilidade econômica. Se não houver um redesenho das estratégias de apoio ao setor, corre-se o risco de desestimular os produtores e comprometer a base de uma cultura que é, ao mesmo tempo, tradição, identidade e sustento para milhares de famílias gaúchas.

Giovana Pinheiro
ÁREAS DE ATUAÇÃO
Graduanda em Direito pela Fundação Escola Superior do Ministério Público (FMP)


